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  Freixinho

Freixinho (fraxinus, no latim) ou pequeno freixo, será a origem toponímica deste lugar e é conotável com a mitologia nórdica. Efectivamente, como refere F. C. Quintais (Vd Quintais, 2000), “nas estrofes heráldicas dos Azevedos, que mais tarde irão abrigar temporariamente os Quintais, durante o progrom Pombalino na nefasta perseguição à família Távora, escreveu João Rodrigues de Sá:

                                       “”Trouxerão daltaalemana
                                             Os Dazavedo a Hespana
                                              Por testemunho e certeza
                                              De grande nobreza
                                              & rezão porque se ganha’.”

Provindos da Alta Alemanha, além da águia, trouxeram os Azevedos o freixo, a sua árvore sagrada, permanentemente verde, o Yggdrasil, sob o qual o deus nórdico Odin padeceu antes da revelação. Considerado na mitologia germânica como a Árvotre do Mundo, torna-se uma marca omnipresente na universalidade das culturas, a significar a união dos patamares subterrâneo, superficial e superior/ascencional.

É Freixinho a terra dos Coutos, ou pelo menos assim era em 1925, por esta família ali se ter estabelecido desde a mais alta Idade Média. Dela derivam os Coutinhos que receberam como mercê o couto de Leomil.

Teve algumas famílias nobres. Gente laboriosa, ufana das suas tradições, algumas de carácter ancestral, tem dado à sociedade pessoas determinantes para a marcha da civilização.

Este povoado, de casas espalhadas irregularmente à volta do “Convento” e da Igreja, a querer esticar-se para um e outro lado da riba do Távora, fica a sensivelmente 3 Km de Fonte Arcada. E já existia em 1193 como parte do seu alfoz, quando D. Sancha Vermuiz, sua donatária, lhe concedeu a carta de foral.

Situa-se a 7 Km da vila de Sernancelhe, a nor-noroeste. Tem uma população total de 151 habitantes distribuídos por 57 fogos e são 194 os eleitores.

Abrange um pequeno mas produtivo rincão agrícola na margem direita do Távora, onde se produz um pouco de tudo, mesmo nozes e amêndoas,. Apesar de abrigada pelo Monte Gordo, a aldeia é razoavelmente fria no Inverno.

Já antes da construção da Barragem, o rio Távora, depois de nele serem depositadas as águas do afluente que chegaram dos arredores de Ferreirim, corria ali calmo e sereno, em seu leito plano, a irrigar fecundas regadas e devesas, onde se amanhava o milho, o feijão, a batata, a vinha, toda a espécie de leguminosas, as gigantescas abóboras e a oliva que dá o precioso fio de azeite.
                                                            

Faia fica-lhe em frente, alegre e soalheira, algo arregaçada das águas, não vá afogar-se como aconteceu à velha Faia, que as obras da barragem improdutiva submergiram em nome de um discutível progresso, juntamente com uma significativa panóplia de gravurinhas rupestres, à volta das quais os solícitos arqueólogos nunca se lembraram de organizar jornadas de estudo e protesto.

                                                      

Com o estiolamento das árvores ribeirinhas veio o excesso de humidade a amedrontar a produção agrícola rumo à perda da quantidade e à quebra da qualidade. E a velha ponte românica, que ligava a Penso, de tabuleiro em ângulo obtuso e com um só óculo de abertura em arco de volta inteira, foi desaparecendo (primeiro as guardas, depois pedras do tabuleiro e finalmente a estrutura) numa lenta agonia sem que alguém ousasse a iniciativa de solenes exéquias. Restaram a jusante as poldras por onde se atravessava o rio para aceder aos moinhos e ao boticário da Faia.

A história de Freixinho gira à volta da Igreja Paroquial de  S. Miguel Arcanjo e do Recolhimento de Nossa Senhora do Carmo.
                                                                             

O Recolhimento, que normalmente é designado por Convento de Freixinho, obra do século XVII, era, por vontade expressa do seu fundador, o licenciado João de Gouveia Couto, ali sepultado a 12 de Julho de 1704 na igreja privativa, destinada à educação de senhoras e raparigas.

A memória deste modesto mas precioso imóvel, até à pouco perto da ruína, é assinalada no primoroso livro de Abel Botelho, Mulheres da Beira, com o perfil da fidalga Teresa da Quinta do Cerro (Tabuaço), e no romance de Aquilino Ribeiro, Cinco Reis de Gente, onde se vislumbra a doce e inefável tia Custódia.

Escapou o Convento à sanha devastadora de 1834, pelo facto de, sendo um estabelecimento religioso do ramo feminino, poder manter-se, embora sem novas admissões até à morte da última religiosa. E esta, ali amadurecida e envelhecida à sombra desta prerrogativa, era natural da freguesia de Pendilhe, hoje concelho de Vila Nova de Paiva.

Mas a fobia demagógica de 1910 selou-o em definitivo e confiscou-o. A família Cunha Souto, descendente legítima do fundador, não se conformando, recorreu para a justiça e os bens foram restituídos aos representantes sucessórios do doador, sem que, no entanto, se não evitasse a perda da maioria dos valores do recheio.

Com o seu desaparecimento, as classes humildes perderam um importante auxílio para a sua vida educativa, religiosa e social. No entanto, a doçaria regional mantém um resquício saboroso das goluseimas do convento – as tradicionais cavacas de Freixinho.

Hoje, o convento, devidamente recuperado, retaurado e adaptado, transformou-se, por iniciativa e gosto dos actuais detentores, num belo e confortável Hotel Rural, onde os turistas e homens de negócios podem gozar do aconchego da permanência, degustar os espécimes gastronómicos e espraiar o olhar pela freguesia e pela paisagem.

A Igreja Paroquial, do século XVI, ainda que longa e sombria, é harmoniosa e bem proporcionada. Possui uma capela-mor de tecto apainelado, com altar e enquadramento de belíssima talha dourada, estilo renascença. O altar-mor apoia-se em quatro colunas suportadas por quatro figuras esculturadas – obra típica da arte popular do tempo e tem por remate uma engraçada concha que forma o dossel do tabernáculo.

No corpo da Igreja, há duas capelas: uma dedicada à Senhora da Conceição e outra a S. José. A capela de Nossa Senhora foi erigida pela família Cunha que, se ligou à dos Soutos. O escudo exibe, na brica, um leopardo e, no gume do arco, as nove cunhas de azul em campo vermelho, relacionadas com a tomada de Lisboa, nas muralhas de cujo castelo D. Paio Guterres – fidalgo borgonhês que veio para o Condado Portucalence no séquito do Conde D. Henrique a quem serviu como soldado e leal conselheiro – mandou cravar as nove cunhas e por elas subiu com os seus camaradas de armas. Dentro guarda dois retábulos que representam Santa Ana e S. Joaquim. A segunda capela, bastante deteriorada, ostenta no forro de madeira o brazão dos Almeidas, do seu fundador José de Almeida, a quem, atendendo à sua geração, vida e costumes, o Bispo D. Nuno da Cunha de Athayde, Capelão-mor e Inquisidor Geral, nomeou Familiar do Santo Ofício da Inquisição de Coimbra, a 7 de Dezembro de 1701.

Do lado direito da Capela-mor ou do Santíssimo, lê-se em pedra tumular esta inscrição, gravada em caracteres latinos: “DOCTOR PETRVS GVNSAL.º EX ANTIQVA AMATOR.º FAMILIA HVI SACELI FVNDATOR HIC TVM.IAC.OB.1547” – que em português se traduz – “ O Doutor Pedro Gonçalo, da antiga família Amador, fundador desta capela, jaz neste túmulo. Morreu em 1547”.

O túmulo que se encontra na mesma capela, à esquerda, não tem estátua jacente nem inscrição.

No pavimento do presbitério, está uma outra sepultura, mas rasa, com inscrição apagada de que se destaca, embora tenuamente a letra “A”, de uso corrente no século XVI.

No Terreiro está patente a casa brasonada da família Cunha e Souto, com um bonito portão e páitio lajeado.

Rumando ao cemitério, e seguindo as últimas cruzes de granito das estações da Via Sacra que, saindo da Igreja, perpassam a parte central do aglomerado paroquial, acedemos ao Calvário donde a alpendrada e austera capela de S. Pedro, olhando a minúscula e distante capelita de Santa Bárbara, como que absolve dos pecados terrenos quantos repousam no “campo santo” e associa Faia e Freixinho no mesmo acto de purificação nas já poluídas águas do Távora.
                                                 

De um e de outro lado da desfeita ponte românica do Pontigo, sobre fragões enormes o rapazio daqui e de Penso armava um como que vestiário e em carrapato se atiravam, seguidamente de mergulho nas águas fundas e frias do Fisgueiro e do Musgueiro.

Já não existem os moinhos antigos nem os moleiros nem os animais que transportavam a moenda. E a providência humana encarregou-se de afundar as penedias, as pontes, as poldras, os moinhos, o amieiral, as regadas e anexos. Possuíra uma fábrica de telha que desapareceu e que parece estar ligada, por causa da matéria prima, ao denominado lugar do Barreiro.

Mas a aldeia, além de continuar, apesar de tudo, a ter boas condições agrícolas – o vinho, a castanha e o azeite são deveras espectaculares – possui as condições de comodidade que os tempos modernos padronizaram como condição de qualidade de vida: electrificação, águas domiciliárias, saneamento básico, ruas empedradas, Jardim de Infância, Escola do 1º Ciclo, sede da Junta de Freguesia, com salão de reuniões e de convívio, e diversos estabelecimentos comerciais.

Da Varanda do Távora
       
Sernancelhe na Marcha da Torrente – página 215 a 217
       
Abílio Louro de Carvalho
     
Edição  Câmara Municipal de Sernancelhe 2002

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