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       As cavacas de Freixinho      

 

 

A História das cavacas de Freixinho
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 Doçaria conventual: o triângulo dos conventos da Ribeira, Freixinho e Tabosa (1)

É vulgar a afirmação de que vivemos numa época de profundo hedonismo, do homem tornado desejo ou sedução, uma época de reificação de tudo o que respeita ao corpo e aos sentidos. O próprio pensamento contemporâneo parece experimentar uma espécie de má consciência por 25 séculos de enaltecimento do espírito em detrimento do corpo.

De facto, a tradição ocidental funda-se nessa dicotomia Corpo/Espírito de matriz helénica, que o cristianismo adoptou sem grandes ressalvas, e a modernidade retocou em vista de outros fins ou, em duas palavras, de ontologia fez gnoseológica. A reacção contemporânea parece assim perfeitamente legítima. Um dia escutei um colega fazer esta afirmação numa aula de Antropologia e, quase todos esperava-mos uma resposta académica, o professor limitou-se a dizer: " o homem científico-técnico do nosso tempo tem feito mais pela destruição do seu aparelho sensitivo que toda a tradição greco-cristã!... Vejam só quanto o nosso olfacto tem sofrido com os desodorizantes, perfumes, after-shaves e afins".

Se transpusermos este exemplo para o campo do paladar temos de verberar contra os fogões, panelas de pressão ou os tão sofisticados micro-ondas, antes que dobrem os sinos pelas nossas papilas gustativas. Quem será capaz de, daqui a alguns anos, apreciar, sentir a diferença entre um coelho estufado no pote de ferro e um outro estufado na malfada e veloz panela de pressão? Ou então, para ir-mos directos ao nosso tema, entre as cavacas feitas como só as religiosas do Recolhimento de Nª. Sra do Carmo de Frexinho souberam ensinar e essas imitações industralizadas em que o pão de trigo mais parece massa esponjosa sem sabor nem consistência; ou entre o célebre Arroz Doce de cesto de Vila da Rua e toda essa catadupa de instantâneos, cremes ou, como agora dizem para aí, doces sem açúcar!
Do nosso riquíssimo património gastronómico a doçaria é, possivelmente, o menos conhecido e o que corre maiores riscos de desaparecimento. A esse património está associado o triângulo conventual, Ribeira - Freixinho - Tabosa, todos conventos de religiosas, exceptuando o caso do da Ribeira, incialmente de religiosos franciiscanos.
As cavacas de freixinho, esse delicioso pão de trigo tremês amassado com ovos e, depois de cozido, embebido em açúcar são, pelo que sabemos, mais conhecido e em menor risco de desaparecimento. O Recolhimento de Nossa Senhora do Carmo de Freixinho foi fundado pelo Lic. João de Gouveia Couto (ou Souto?), falecido em 13 de Junho de 1704, conforme inscrição (transcrita pelo Ab. Vasco Moreira na sua monografia dedicada a Sernancelhe) de sua sepultura na igreja. Deve, portanto, ter sido fundado na segunda metade do século XVII, com o intuito de dar alguma educação às meninas de famílias nobres mas sem grandes recursos, que eram admitidas mediante a emissão de votos simples. (2)
Com o advento da República, as recolhidas foram expulsas e o seu dote confiscado, assim os bens do Recolhiimento, mais tarde recuperados pelos herdeiros do fundador. Lamentava-se o Abade Vasco Moreira do desaparecimento de "uma fonte de educação" num meo tão carente dela. Restam as cavacas, enquanto alguém tiver memória da sua confecção e cultive o trigo tremês.

Os Fálgaros são criações das religiosas do Convento da Tabosa, à data da fundação simplesmente uma quinta que D. Maria Pereira transformou em comunidade de religiosas cistercienses, dependentes de Alcobaça. Mulher rica e poderosa, parente dos Codes da Feira e viúva de Paulo Homem Teles, tenente-general de cavalaria e governador das armas da província da Beira, D. Maria Pereira era natural de Sernancelhe. Sem filhos nem herdeiros decidiu então adaptar a bonita quinta da Tabosa a convento cuja escritura de instituição e dote data de 22 de abril de 1690, tendo como outorgantes a própria e a congregação de Alcobaça, representada pelos abades de S. Pedro das Águias e do Mosteiro de SAlzedas.
Até à sua extinção em 1834, a vda das religiosas nem sempre foi pacífca uma vez que Pombal, que provavelmente conhecia o Convento, transferiu, por despacho real, as religiosas, rendas e dotação, para Setúbal. Quando D. Maria I, restituiu as freiras ao seu convento o seu aspecto era desolador, mas, com toda a certeza não mais que é hoje ou já era em 1929, nas palavras de Vasco Moreira: " O Convento hoje causa pena. Estive há pouco tempo ali e vi algumas das suas cela intactas, alguns corredores regularmente conservados. O resto - salas, dormitórios, fontes, tanques, claustros - são ruínas, ruínas, cujas pedras as silvas abraçam e a hera esconde, como que envergonhadas e receosas, não vão os homens bárbaros acabar a obra que o tempo aínda não completou". (3)

O Convento da Ribeira, inicialmente uma comunidade franciscana masculina, passou a albergar freiras a partir do primeiro quartel do séc. XVI, por vontade de D. Maria Pereira, com a sua homónima do convento da Tabosa, natural de Sernancelhe, rica e poderosa, mas com duas filhas que pretendia destiinar à vida conventual. De forma violenta ou não - é coisa que não se sabe - os frades foram expulsos para que D. Maria aí desse entrada com as suas filhas.
Para o que nos interessa sabemos que do seu labor resultou o doce de pêra e o doce de ovos. Ao primeiro refere-se o Ab. Vasco Moreira e sabemos que era muito conhecido em toda a região. O segundo aparece inclusvamente na Cozinha Tradicional Portuguesa de Mara de Lurdes Modesto. Recentemente tive também conhecimento de uns pequenos bolos doces espalmados que era costume distribuir aos Pobres por altura da quadra pascal. Todo um imenso património que definha a par da agudeza do gosto, do olfacto e mesmo da vsta que, contrariamente ao que muitas vezes se pensa, uma tradição de séculos preservou, mesmo parecendo que a destruia ou desprezava.
As religiosas do triângulo conventual do actual território de Sernancelhe (Freixinho e Tabosa só desde o século passado são sernancelhenses) dão-nos uma prova de como os labores do espírito não faziam esquecer as delícas que alimentavam o corpo.
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(1) Texto redigido por Dr. ALCIDES  SARMENTO, Março de 93
(2) MOREIRA, Ab. Vasco (1929), Cernancelhe e seu Alfoz, pp. 193-96 e COSTA, M. Gonçalves, História do Bispado e Cidade de Lamego, História do Bispado e Cidade de Lamego, História do Bispado e Cidade de Lamego, Vol. IV, pp. 249-50
(3) MOREIRA, Ab. Vasco, Op. Cit., p. 186
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