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 Biografia     

Poeta épico e lírico, unanimente considerado o maior poeta de língua portuguesa de sempre e um dos maiores da literatura universal, a sua biografia é praticamente impossível de traçar com exactidão, pois os elementos sobre ele existentes são escassos. As lacunas existentes têm sido preenchidas por conjecturas e deduções tiradas da leitura da sua obra, critério este extremamente falível.

Luís Vaz de Camões nasceu em 1524 ou 1525, provavelmente em Lisboa (Coimbra também é geralmente apontada como o local de nascimento do Poeta), e morreu em Lisboa a 10 de Junho de 1580. O primeiro comentador de Os Lusíadas, licenciado Manuel Correia, prior da Igreja de S. Sebastião, à Mouraria, diz que «foi nascido e crescido em Lisboa», onde um documento informa morarem os pais do Poeta. O licenciado diz ter sido seu amigo e dele ter recebido a insistente solicitação para anotar-lhe a obra, e Pedro de Mariz, fala com respeito do anotador nessa edição d'Os Lusídas onde escreveu o primeiro esboço da biografia do poeta (Lisboa, Pedro Crasbeck, 1613), publicada trinta e três anos depois da sua morte. A brevidade da nota de Pedro de Mariz, mostra o pouco que por essa altura já se sabia acerca do poeta.


Coimbra no séc. XVI

Os seus ascendentes eram originários da Galiza. Em 1370, veio para Portugal, Vasco Pires de Camões, descendente de fidalgos galegos e partidário de D. Fernando na sua pretensão ao trono de Castela. Estabeleceu-se por cá definitivamente, provavelmente em Coimbra, pois seu filho, João Vaz de Camões e os descendentes figuram nos arquivos desta cidade. Um tio do poeta, D. Bento de Camões, foi prior do Convento de Santa Cruz e chanceler da Universidade, e um primo, Simão Vaz, indivíduo desregrado que, no entanto, manteve as melhores relações com o príncipe D. João, pai de D. Sebastião.

Luís de Camões era filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá, segundo o confirmam os documentos oficiais. Esses documentos referem-se a sua mãe como pertencendo à família dos Macedos, de Santarém. Por isso lhe é atribuído o nome de Ana de Sá de Macedo. Estas informações arquivísticas categorizam-lhe a família em alto plano hierárquico e indicam-no a ele como cavaleiro fidalgo da Casa Real, o que, não lhe dando garantia contra a pobreza, abria-lhe as portas dos Paços Reais, onde irá brilhar.

 
Lisboa no séc. XVI

A sua formação cultural, essa decorreu provavelmente em Coimbra. A situação que na Universidade ocupava o tio D. Bento torna admissível ter sido ele a dirigir-lhe a educação, embora não haja registo comprovativo de que tenha frequentado a Universidade. É difícil explicar a vastíssima e profunda cultura do poeta sem partir do princípio de que frequentou estudos de nível superior. O poeta refere-se a esse tio na canção «Vão as serenas águas...»

De volta a Lisboa, participou com diversas poesias nos divertimentos poéticos a que se entregavam os cortesãos; relacionou-se através desta actividade literária com damas de elevada situação social, e com fidalgos de alta nobreza, com alguns dos quais manteve relações de amizade.

Estes contactos palacianos não devem contudo representar mais do que aspectos episódicos da sua vida, pois a faceta principal desta época parece ser aquela de que dão testemunho as cartas (escritas de Lisboa e da Índia).

 
Ceuta. Gravura de Braun

Entre 1547 e 1549 esteve em Ceuta como soldado, segundo Severim de Faria (Discursos Vários Políticos, Évora, 1624). Teria sido em África que um pelouro lhe vazou um dos olhos em algum recontro com os Mouros. De certeza sabe-se que a deformidade ocorreu antes da sua partida para a Índia, pois a ela se refere numa carta que de lá escreveu como sendo facto conhecido. 

Sobre a sua estada em Ceuta, o seu primeiro biógrafo, Pedro de Mariz, alude ao boato de que foi castigo por uns amores que, segundo dizem, tomou no Paço e depois Diogo de Paiva de Andrade, em suas Lembranças, e o prior da Sé de Évora, Manuel Severim de Faria, cultor de história biográfica e genealogias. Todos, porém, sobre o mesmo segundo dizem. Essa dama tem sido identificada como uma das três Catarinas de Ataíde que existiram no século (Faria e Sousa) e já no nosso tempo com a Infanta D. Maria (Prof. José Maria Rodrigues). Nunca se saberá. 

A sua estada em Ceuta documenta-se com a elegia «Aquela que de amor descomedido», e à perda de um dos olhos em combate se refere a canção «Vinde cá, meu tão certo secretário». Note-se que, nestes como noutros poemas, é nulo o seu entusiasmo bélico, apenas sensível a depressão do desterro, a solidão.

 
Luís de Camões conheceu uma Lisboa que vivia o período áureo da sua história. «Cidade de muitas e desvairadas gentes», nela fervilhava uma intensa vida comercial e cultural, como bem mostra a obra de Camões. 

É quando volta de Ceuta que ele desvaira na boémia. Não parece ter modo de vida; e esta leviandade a descambar para a dissolução está de acordo com os documentos através dos quais podemos reconstruir as circunstâncias da sua partida para a Índia. Em dia de procissão do Corpo de Deus, no Rossio, com mais dois amigos, envolve-se em desordem com um tal Gonçalo Borges, criado do Paço, ao qual fere com um golpe de espada no pescoço, tendo ficado preso na cadeia do Tronco. O ofendido, «que ficou sem aleijão nem deformidade», ao fim de algum tempo perdoa ao agressor «toda justiça, dano, corregimento» e assim o faz também D. João III, na Carta de Perdão, que é dos mais directos e informativos documentos sobre Camões: consta dele o nome do pai -Simão Vaz de Camões - e a qualidade de fidalgo da Casa Real. Diz que «o suplicante é um mancebo e pobre e me vai este ano (1553) servir à Índia...». 

Por tudo, o rei lhe perdoa, apenas devendo pagar 4000 réis para piedade. O ir servir o Rei à Índia talvez não fosse condição imposta, até porque o agredido lhe perdoava, mas resolução espontânea do poeta, e isso talvez lhe tenha propiciado mais facilmente o perdão, mas sobretudo porque essa partida seria uma maneira de se libertar da vida sem horizontes que levava e o não satisfazia, como se deprende de carta enviada da Índia: «Enfim, Senhor, não sei com que me pague saber tão bem fugir a quantos laços me armavam os acontecimentos, como com me vir para esta» (terra), declaração que põe bem evidência a voluntariedade da largada. Também é possível que Camões tenha visto nesta aventura - a mais comum entre os portugueses de então - uma forma de ganhar a vida ou mesmo de enriquecer. Aliás, uma das poucas compatíveis com a sua condição social de fidalgo, a quem os preconceitos vedavam o exercício de outras profissões.


Nau S. Bento na qual viajou Luís de Camões a caminho da Índia. No regresso no ano seguinte, em 1554, esta nau naufragou no Cabo da Boa Esperança.

Embarcou a 24 de Março na «Armada de 1553» comandada por Fernão de Álvares Cabral da Cunha. Na viagem sofreu uma grande tempestade no Cabo da Boa Esperança e disso nos dá conta na elegia O Poeta Simónides

A vida de Camões no Oriente esteve longe de decorrer com calma e prosperidade propícias. Goa decepcionou-o, «A terra é mãe de vilões e madrasta de homens honrados...». Não foi feliz. Queixa-se de saudades no Cabo Guardafu (Canção Junto de um seco, duro, estéril monte ..., uma das suas mais belas Canções); de saudades se lamenta na ilha de Ternate...

São ainda as suas composições que nos informam dos momentos de grato convívio, como aquele em que, tendo oferecido uma ceia a fidalgos seus amigos - João Lopes Leitão, Vasco de Ataíde, D. Francisco de Almeida e Heitor da Silveira - encontraram estes nos pratos graciosos versos por iguarias. Envolve-o simpatia e prestígio que o habilitam a pedir ao Vice-Rei, Conde de Redondo, a quem glosa versos que ele lhe manda, protecção para Heitor da Silveira e para o livro Colóquios dos Simples e Drogas, do Dr. Garcia de Orta, que publica a ode a isso destinada em sua primeira edição, e a solicitar do herói de Malaca, D. Leonis Pereira, benevolência igual para a obra Pêro de Magalhães de Gândavo História de Santa Cruz


Goa no séc. XVI

Colabora nas festas de investidura de Francisco Barreto no cargo de governador da Índia (1555) com o Auto de Filodemo. Em alvará de 1585, confere Filipe I à mãe do Poeta - Ana de Sá - a tença do filho, falecido, atendendo aos serviços de "Simão Vaz de Camões e aos de Luís de Camões, seu filho, cavaleiro da minha casa, e a não entrar na feitoria de Chaul, de que era provido...". A nomeação do Poeta implica certo reconhecimento dos seus méritos, e o não provimento no cargo converge no mesmo significado com quanto nos fala nos seus infortúnios, por exemplo, as trovas ao Vice-Rei Conde de Redondo, para que o livre do embargo por dívida a um seu credor de apelido Rodrigues, citando-o pela alcunha de Fios-Secos , pela qual era geralmente conhecido na Índia; as Oitavas ao Vice-Rei D. Constantino de Bragança, em que alude à "pobreza avorrecida,/ por hospícios alheios degradado"; e a do Canto X dos Lusíadas, alusiva ao injusto mando de que foi vítima e ao naufrágio na foz do rio Mecon. Fundindo suas mágoas pessoais com o mal-estar geral, o Poeta chora a incompreensão da Pátria, que o não ouve, porque "está metida / no gosto da cobiça e na rudeza/ duma austera, apagada e vil tristeza".

Como soldado parece que participou (Novembro de 1553) numa expedição à costa do Malabar e esteve, por algum tempo, no cabo Guardafui, incorporado, ao que se crê, no cruzeiro ao estreito de Meca, entre Fevereiro e Outubro de 1555, feito pela armada de Manuel de Vasconcelos. É depois destas duas expedições que se situa o seu período em Macau. 

Em data que é impossível precisar, Camões naufragou na foz do rio Mekong (actual Vietname), salvando das águas o manuscrito d'Os Lusíadas, como ele próprio declara ( X, 128). É nesse naufrágio, diz a Década manuscrita da Biblioteca Portuense que lhe morreu uma moça china mui formosa, com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte, em que entrou aquele que diz «Alma minha gentil que te partiste ...». Nenhum da Lírica do Poeta é tão conhecido:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

 


Diogo do Couto, segundo gravura publicada no vol. IX da Ásia, de João de Barros e Diogo do Couto, de 1778.

Em 1567, Pêro Barreto, irmão de Francisco Barreto, para cuja investidura no governo do Estado da Índia o Poeta fizera representar o seu Auto de Filodemo, trouxe-o de Goa para Moçambique, para onde vinha como capitão. Fê-lo, a acreditar em Mariz, com falsas promessas de que em breve o desenganou. Quando Camões, na passagem da nau pela ilha, quis embarcar nela ou tornar a Goa, o capitão reteve-o preso, até lhe pagar os 200 cruzados pelo transporte. Pode suspeitar-se que o pagamento da viagem tivesse sido satisfeito no início da viagem, e que tal dívida fosse antes contraída ao jogo durante o trajecto; o que nada tem de anómalo, pois é bem sabido que a bordo das naus da carreira da Índia se jogava desenfreadamente às cartas e aos dados, com a ruína de muitos que vinham da Índia com alguns meis financeiros ou de outros que iam para lá procurando enriquecer. 

Resgataram-no «alguns fidalgos amigos», quotizando-se entre si para saldar a dívida reclamada por Pêro Barreto, e pagando-lhe a viagem de regresso ao Reino. Segundo Mariz, esses amigos eram Heitor da Silveira (também poeta), António Cabral, Luís da Veiga, Duarte de Abreu, António Ferrão «e outros». É então que Diogo do Couto o encontra em Moçambique, «comendo de amigos, retocando as suas Lusíadas e escrevendo muito em um livro que ia fazendo, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtaram. E nunca pude no Reino saber dele, por muito que inquiri. E foi furto notável».


D. Sebastião. Retrato do pintor do séc. XVI, Cristóvão de Morais, existente no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Por esta referência de Couto se pode estabelecer o ano de 1969 como a data do regresso do Poeta a Lisboa, tendo arribado ao porto de Cascais na Primavera de 1570. Em Lisboa encontrou ele o ambiente que lhe adensaria a tristeza que trazia do Portugal ultramarino. Sob D. Sebastião, a coisa pública decorria em termos a que, logo que o poema foi publicado, se sentiu ligada a sátira que nele lhe consagra Camões, nas estrofes do canto IX, em que representa o monarca sob a figura de Actéon, emergindo de ambiente de que não poupa os aspectos condenáveis - adulação, egoísmo, injustiça, hipocrisia.

A 24 de Setembro de 1571, Camões obteve, de D. Sebastião o alvará que lhe permite imprimir Os Lusíadas por um período de dez anos. Em 1572 sai a obra, em Lisboa, em casa do impressor António Gonçalves. E, em 28 de Julho do mesmo ano, D. Sebastião concede ao poeta uma tença anual de 15 000 réis, a pagamento desde 12 de Março, pelos serviços que este lhe havia prestado na Índia, e não apenas para o compensar pela publicação d'Os Lusíadas. Esta tença foi paga irregularmente, mas sempre na sua totalidade, dela beneficiando, por ordem de Filipe II de Espanha, a mãe do poeta, que lhe sobreviveu. É graças a essa documentação que sabemos que a morte de Camões ocorreu em Lisboa, a 10 de Junho de 1580.


«A Morte de Camões». Desenho de Domingos Sequeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa. 

O valor da tença era, efectivamente, inferior a muitas outras que o poder régio concedeu, em data próxima, a servidores seus como, por exemplo, João de Barros, quando deixou a feitoria da Casa da Mina. Segundo o testemunho de Diogo do Couto, seu contemporâneo e amigo, «em Portugal morreo este excellente poeta em pura pobreza» (Década VIII, liv. 1, cap. 28, Lisboa, 1673). Tudo indica que a tença era insuficiente e inadequada ao serviço que o poeta prestara à pátria, ao dar-lhe a obra que se tornaria no poema nacional.

Dada a exiguidade da tença, irregularmente paga e certissimamente mal administrada, não custa aceitar a fundamental verdade da lenda sobre o abandono e miséria em que ao Poeta decorreram os últimos anos da vida. Por isso não custa acreditar na lenda das esmolas recolhidas pelo seu criado Jau (javanês)

Da Década manuscrita da Biblioteca Municipal Portuense consta:


Túmulo de Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa.

«Deixei-o no Reino, pobre e sem remédio e estado, que quando morreu, o enterrou a Companhia dos Cortesãos e o depositaram à porta do Mosteiro de Santana, da banda de fora, chãmente.»

Diz a tradição que Luís de Camões, já no leito de moribundo, teve notícia da catástrofe Alcácer Quibir. «Morro com a Pátria», teria exclamado.

Diogo Bernardes, quinze anos depois da morte do Poeta, em soneto publicado na edição de 1595 das Rimas deste, tinha no espírito essa tradição, conforme à sua memória de contemporâneo, quando escreveu:

Honrou a Pátria em tudo. Imiga sorte.
A fez com ele só ser encolhida,
Em prémio de estender dela a memória.

Oxalá fosse verdadeira a outra referência de Diogo do Couto, no citado manuscrito, à homenagem póstuma que lhe prestou D. Gonçalo Coutinho: «Por sua fidalguia [do Poeta] e pelo que devia à sua ciência, lhe mandou pôr uma campa sobre uma cova, com o letreiro que declarasse quem era e as obras que compôs.»

 

O Poeta na Literatura e na Vida Portuguesa


Monumento a Camões, em Lisboa, inaugurado em 1867. Escultura de Victor Bastos.

Em Portugal, a glória do poeta, mal reconhecida em sua vida, não tardou a irradiar logo após a sua morte, e foi crescendo em prestígio e influência. A qualificação de Camões como o príncipe dos poetas do nosso tempo não se fez esperar e, tal qual sucede na Espanha, são os seus versos glosados, imitados, citados. Em Fernão Álvares, depois da de Sannazaro, é a influência camoniana que mais se faz sentir. A exasperação nacionalista, provocado pela união em monarquia dual de Portugal à Espanha, faz d'Os Lusíadas o Evangelho nacional. João Pinto Ribeiro animava com a leitura e comentário do poema o seu ardor revolucionário. São relativamente numerosas as edições que então se publicam em Portugal. Os poetas épicos aproveitam-lhe o modelo, inserem versos dele em seus poemas; os líricos proclamam-no o Cisne Lusitano, a Fénis das Espanhas, o Homero Lusitano, e glosam-no. É ele que disputa a Tasso e a Gôngora o magistério do Parnaso Lusitano, magistério sensível nos maiores - D. Francisco Manuel de Melo e Rodrigues Lobo, Barbosa Bacelar, Veiga Tagarro e o próprio Jerónimo Baía. O Dr. António de Sousa de Macedo, em Flores de España, Excelencias de Portugal, chega a afirmar que o nascimento de Camões foi prognosticado pela Sibila Cumena!... Apenas reparos restritivos na crítica de Pires de Almeida, que, aliás, ficou inédita.

No séc. XVIII, já se adivinha porquê, fazem-lhe descontos ao génio as críticas de Verney e Cândido Lusitano; mas os maiores poetas do século não ouvem tais críticas, e Cruz e Silva, Quita, Bocage e Xavier de Matos são unânimes no culto do poeta, que erguem acima de todos. O Romantismo, esse não presta atenção às diatribes clamorosas do P.e Agostinho de Macedo contra o poema, nem à obra que lhe opõe como modelar - O Oriente

Em tempo de exílios políticos, o Morgado de Mateus dedica-lhe uma edição monumental, Sequeira obtém triunfos retumbantes no Salon, em Paris, com o quadro - desaparecido - A Morte de Camões; Bontempo consagra-lhe a Missa de «Requiem» e Garrett inicia com o poema Camões o Romantismo português. E se os ultra-românticos o cantam como único, a geração que se proclama anti-romântica - João de Deus, Antero de Quental, Oliveira Martins, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão - prepara o ambiente da consagração nacional de 1880, promovida por Teófilo Braga, e que se pensou fosse um passo decisivo para a renovação espiritual e política da Nação. Quando do Ultimatum inglês, os patriotas cobriram a sua estátua de crepes. 

O diplomata e escritor espanhol Valera, que por esse tempo esteve em Portugal, escreveu que Os Lusíadas «son el mayor obstáculo à la fusion de todas las partes de esta Península. Camões se levanta entre Portugal y España qual firme muro, más difícil de derrubar que todas las plazas y los castillos todos». 

Modernamente o coro persiste, apesar de reservas críticas de alguns. E, ao que o exalta em Portugal, junta-se o que no Brasil dá continuidade à comunicativa eloquência de Joaquim Nabuco. Recebeu-lhe a herança, mais do que ninguém, Afrânio Peixoto, por virtude de cuja sugestão se fundou a cadeira de Estudos Camonianos na Faculdade de Letras de Lisboa.

© Instituto de Camões

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